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quinta-feira, 28 de julho de 2011

Um brasileiro em Moçambique e a fome na África



Parado no sinal fechado, voltando do almoço, vi a loirinha abrir a janela do Jeepão 4×4 e fazer um gesto pra menino que estava ali, no cruzamento das avenidas Mao Tse Tung (ele mesmo) e Julius Nyerere (ex-presidente da Tanzânia), zona nobre de Maputo. O garoto veio, correndo entre os carros. A moça deu a ele dois saquinhos – um azul e outro rosa. Eram de algodão doce. Os olhos do menino ficaram bem arregalados, e muitos foram os sorrisos e agradecimentos.
Abriu o sinal, o trânsito andou, o Jeepão foi embora, e eu, sem vaga pra parar o carro, acabei por ter que dar outra volta no quarteirão, parando quase no mesmo sinal fechado, uns dois minutos depois da cena inicial. Tempo suficiente para ver o mesmo menino, os mesmos saquinhos. Só que agora, ele já estava tentando vendê-los.
Decepcionado com tanta “ganância”? Não fique. Sorriso e algodão doce podem até preencher o coração do menino de amor, mas não mata a fome dele. O que mata a fome dele é xima: água e farinha de milho, base da alimentação de milhões e milhões de africanos.
“Quebra um pouco o encanto”, mas pobreza não tem encanto. Olhos azuis cercados por cabelos amarelos, quando encontram olhos pretinhos num rosto tristonho, costumam brilhar de compaixão e piscar intensamente, cheios de doçura – mas não enchem barriga.
Pra alguns também “quebra o encanto” saber que aquele agasalho velho que foi doado para “os pobres da África” não é entregue a um “pobre da África”. É destinado a instituições (em alguns países é mesmo o governo que faz isso) que – segure seu queixo, loirinha – vendem essas roupas, aos fardos, para revendedores locais.
Há verdadeiros mercados só com as roupas doadas. Aqui em Moçambique chamam a isso de “Calamidades”. “Comprei nas Calamidades”, é a frase. Camisas, calças, cintos, vestidos, agasalhos, sapatos, cobertores, tecidos, chapéus, toalhas, sacos de dormir, barracas de lona, fogareiros. Tem de tudo nas Calamidades.
Sim, loirinha: eles vendem aquele vestidinho que você doou “com tanto carinho”. E isso é ótimo. Gera emprego e renda pro vendedor, distribuidor, revendedor, costureira que conserta o que não vem bom, motorista do caminhão. Alguém usa a roupa, mas alguém também ganha dinheiro – e compra farinha pra fazer xima.
“Mas estão lucrando em cima de mim! Da doação que fiz com tanto carinho!” Bom, chegamos ao ponto da indignação, então: é que eles ganham, e não você – que doou “com tanto carinho”.
Entrevistei Dom Paulo Evaristo Arns, uma vez, nas vésperas de um Natal. No clima, pediu para as pessoas não restringirem a caridade ao fim do ano, e, também, a “doarem de verdade”. “Mas o que é doar de verdade, Dom Paulo?” “Doar de verdade é tirar de si – do que lhe fará falta – para dar a quem precisa. A doação de que fala a Bíblia é aquela em que você arranca de si próprio para que o próximo receba, mesmo que você fique sem.”
Quantos ficarão decepcionados na porta do Céu! Vão bater e voltar, mesmo tendo doado milhões de dólares para a caridade.
Ao longo da vida, “deram de coração”, “deram com carinho” – mas só o excedente. Deram porque não fazia falta. Ajudaram ao próximo? Sim. Mas, pelas palavras de Dom Paulo, passando longe da tal “doação de verdade”.

Nesta semana, a ONU “alertou para a fome” na Somália. Está hoje nos jornais que “se ninguém fizer nada, 800 mil pessoas morrerão de fome no Chifre da África”. E tem um monte de matéria, repórteres vindo, programas já sendo montados. Sacos de arroz serão enviados em aviões militares. Princesas e atrizes virão beijar os pobrezinhos, e chorar diante de tanta miséria. Talvez algum grupo de artistas de renome monte um show, ou – quem sabe – grave uma música! Cachês serão doados e todos os lucros – excetuadas as despesas, claro – serão doadas para combater a fome na África. Que tal?
“We are the World”, de 1985, foi exatamente isso. O “sobrenome” do projeto era “USA for Africa”, e surgiu quando de um onda de fome bíblica na Etiópia – vizinho de parede da… Somália.
Poucos tinham pensado nisso tudo semana passada, antes do “alerta” da ONU. Mas a fome – oh! – já estava lá. E aqui. E ali. A cada seis habitantes da Terra, um passa fome, a maioria dos famintos é de africanos (e asiáticos também). Metade do continente está abaixo da linha da pobreza. A proporção é essa já faz um tempo. “Se ninguém fizer nada” ficará pior.
Mas, pra ficar claro: que façam. Que venham as princesas, que mandem o arroz, que cantem as canções. Afinal, é de coração. E vai ajudar de alguma forma: é um pouco mais de dinheiro, é um pouco mais de arroz, é um pouco mais de atenção. Um pouco mais de algodão doce.
Imagino que a loirinha do Jeepão deva ter seguido o seu caminho sentindo-se recompensada pelo sorriso do menino, pensando que “se todos no mundo olhassem um pouquinho mais para esse pobres da África, o mundo seria melhor.” Seria, mas não basta “olhar um pouquinho”. É preciso olhar muito, pensar muito, tirar do seu pra ele ter (daí sim) um pouquinho. Mais do que saquinho colorido, eles precisam de impulso, comércio justo, que não se estimule a corrupção, investimento cavalar em educação e saúde. Em uma palavra: oportunidade.
A África fica feliz com sorriso e algodão doce. Mas consegue viver sem eles. Não vive é sem farinha pra fazer xima. A mudança virá, mesmo, no dia em que puder pelo menos sonhar em comprá-la sozinho.
PS: As fotos do post do Marcello Casal Jr, tiradas no Soweto, África do Sul, durante a Copa de 2010.

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