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quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Milícias: uma herança da ditadura militar

 



  
Escrito por Waldemar Rossi   
Quarta, 02 de Novembro de 2011

 "(...) se esses criminosos são capazes de matar uma juíza e ameaçar um deputado, o que eles não fazem com a população que vive nas áreas em que eles dominam?”
 
Neste país democrático chamado Brasil, pagamos um preço muito caro pelo que herdamos do militares assassinos, que roubaram do povo o seu poder político. Não foram unicamente os crimes por prisões arbitrárias, torturas, assassinatos e desaparecimentos praticados à época (entre 1964 e 1985 – oficialmente). Na década de 60, a violência instituída gerou um delegado facínora chamado Sérgio Paranhos Fleury. Sentindo-se prestigiado pelo autoritarismo e pela certeza da impunidade, criou o famigerado Esquadrão da Morte. Vangloriava-se dizendo que transformava bandidos em “presuntos”, jogados em lugares ermos com o símbolo da caveira.

Na época, São Paulo contava com alguns juristas competentes, amantes da justiça e inimigos da corrupção. Entre eles destacou-se o Procurador Dr. Hélio Bicudo que, a partir da denúncia do Pe. Agostinho, formulou processo contra o delegado assassino, que se colocava acima do bem e do mal, acima da lei, exercendo, ao mesmo tempo, o poder de policial, de inquiridor, de juiz e de carrasco. Por conta da denúncia, por uns tempos, Fleury ficou “encostado” em delegacias periféricas (Vila Rica, por exemplo), sendo logo depois lotado no DOPS paulista e premiado como responsável pelas prisões e torturas de políticos enquadrados na Lei de Segurança Nacional. Por suas mãos criminosas passaram centenas de brasileiros e brasileiras, torturados impiedosa e cruelmente - em alguns casos até a morte. Para refrescar a memória dos mais antigos e esclarecer as gerações mais jovens, cito apenas alguns dos que se foram desta vida, depois da passagem pelo DOPS: Olavo Hansen, Luiz Hirata, Bacuri. Ao mesmo tempo em que outros companheiros, também pude “experimentar” os “carinhos” generosamente aplicados por comparsas do delegado facínora.

Tempos depois, Fleury passou a atrapalhar os projetos de “abertura lenta, gradual e segura” da ditadura e, segundo jornais da época, o grande atleta morreu ao cair de um iate. Afirmam muitos que foi “queima de arquivos”, porque Fleury seria um perigo para os mandantes dos assassinatos, os militares no poder. Nem autópsia deixaram fazer.

Fleury se foi, mas os “Esquadrões da Morte” não. Já haviam proliferado por este Brasil afora, ganhando espaços e incentivos até de grandes empresas multinacionais no estado do Rio de Janeiro. Vários pontos de “desovas” foram criados na baixada fluminense, onde bandidos eram despejados na calada da noite... e do dia também.

A ditadura oficial chegou ao fim deixando várias heranças malditas: a corrupção, a impunidade, a cadeia para os pobres, o rebaixamento do padrão de vida do povo, a entrega da economia nacional para o capital estrangeiro, a Dívida Externa e a Interna e, sobretudo, sua pior herança, a VIOLÊNCIA contra o povo. E o Rio se tornou o centro da ação criminosa impune, praticada por policiais militares e civis, além de políticos envolvidos em corrupção.

Em 2008, o deputado estadual do Rio, Marcelo Freixo, do PSOL, presidiu CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) que provocou o indiciamento de 225 pessoas. E esse indiciamento inspirou a filmagem do Tropa de Elite-2.

Desde o desfecho daquela CPI que o deputado Marcelo Freixo vem sofrendo ameaças de morte, conforme matéria do jornal O Globo, assim como sua família. E as ameaças, segundo suas declarações, vêm aumentando, sobretudo depois do assassinato da juíza Patrícia Accioli, em agosto último, na porta da própria casa. O governo do estado do Rio colocou proteção policial para o deputado e sua família, porém..., a juíza também os tinha.

A Anistia Internacional ofereceu apoio ao deputado e sua família, que deverão deixar o país (viagem programada para o dia 1º de novembro) para lugar ignorado e por tempo indeterminado. Antes de partir, Marcelo declarou:

“Esse é um problema de todo o Rio de Janeiro. Aliás, é um problema nacional. Até que ponto nossas autoridades vão continuar empurrando com a barriga? Ou a gente enfrenta agora e faz o dever de casa contra as milícias, ou, como mataram a juíza, vão matar o deputado, promotores, jornalistas. E, se esses criminosos são capazes de matar uma juíza e ameaçar um deputado, o que eles não fazem com a população que vive nas áreas em que eles dominam?” (...) Esses grupos criminosos estão cada vez mais fortes e dominam várias comunidades do Estado, onde extorquem dinheiro de moradores, comerciantes e controlam atividades como transporte alternativo, venda de gás e de ligações clandestinas de TV a cabo”.

A pergunta do deputado certamente vai ficar sem resposta das maiores autoridades brasileiras, que não estão nem aí com a vida do povo. Nossos governantes estão preocupadíssimos com a construção e reforma dos campos de futebol, que dão ibope e alguma compensação financeira, sobretudo às vésperas de eleições.

A maldita herança deixada pelo Delegado Fleury, e pelos militares que ocuparam o governo pela força da armas, penetrou a fundo na vida do povo, gerando uma verdadeira “guerra civil” não declarada, que elimina milhares de vidas a cada ano neste “país democrático”.

Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo.
 
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