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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Não quero S.O.P.A.

Tragédia em cinco atos

Por Walter Hupsel | On The Rocks – 17 horas atrás

Cena um: Os correios entregam uma carta de um traficante para outro, em que combinam estratégias para dominar a boca de um terceiro. Na carta está descrito todo o plano, a logística, quantidade de armamento etc.. Por questão de privacidade (que ainda existe), o carteiro não abriu a carta, simplesmente a entregou ao destinatário como manda o seu ofício.

Cena dois: Combinada epistolarmente, a ação é seguida à risca, e com êxito. Com um saldo de novo mortos, a boca de tráfico muda de mão.

Cena três: Momentos depois que a carta foi entregue, aberta e lida, a policia federal dá uma batida na casa do destinatário da carta, sem saber da existência desta. Prende o sujeito,  e dá a tradicional "batida" na casa, a procura de provas. Junta algumas, inclusive a tal carta.

Cena quatro: de posse de um mandado judicial, a polícia vai e prende o carteiro! Sim, claro, o carteiro por associação ao tráfico. A justiça julga o carteiro e o condena por formação de quadrilha, associação ao tráfico e como cúmplice dos homicídios.

Cena cinco: Os correios e todos os outros serviços de courrier fecham as portas. Ninguém quer mais trabalhar nestas empresas com o risco de ser preso por uma entrega que, em nome de um antigo e obsoleto pilar de uma sociedade em decadência, a privacidade dos indivíduos,  não pode ser examinada, aberta, violada, scanneada etc.... Só voltam ao trabalho mediante ou a suspensão das prisões ou o fim da privacidade.
Enquanto segue o impasse, nenhuma correspondência é entregue, nenhum cartão postal, nenhuma fatura de banco, nenhuma compra feita on line.

Muito longe esta cena? Muita imaginação minha?
Não. Hoje um dos sites de compartilhamento mais usados no mundo, o Megaupload, foi fechado pelo FBI e quatro dos seus funcionários presos por "pirataria", mesmo depois do recuo da Casa Branca na votação do SOPA (Stop Online Piracy Act, Lei de combate à "pirataria" online).
Este projeto de lei tentava criminalizar os sites que hospedassem conteúdo "pirata" e sofreu oposição no mundo todo, com diversos gigantes da internet fechando suas páginas ontem, data que estava prevista a votação.
Sem querer discutir o conceito de "pirataria" (que visa dar um conteúdo negativo a um compartilhamento), e sem querer entrar na difícil seara dos direitos autorias, que com a internet se tornaram caducos, a atitude do FBI mesmo sem aprovação do SOPA indica o quanto a privacidade e a liberdade estão ameaçadas na rede. Pior, o quanto a rede — enquanto construção coletiva - está ameaçada.
E ela está ameaçada por única e exclusivamente um motivo: porque possibilita comunicação, construção e conhecimento fora dos grandes conglomerados. Óbvio, isso assusta aos governos e aos executivos do entretenimento.
Mas não conseguem parar a roda da história. Quanto mais apertam as mãos na tentativa de segurá-la, mais a geleca escapa entre os dedos.

P.S. Um grupo de ativistas, o OpAnon, em retaliação derrubou os sites do Departamento de Justiça dos EUA e da Universal Music, um dos grandes conglomerados do entretenimento.

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